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Ouvir: InteligĂȘncia Artificial, Cultura e Crise da Escuta

  • Foto do escritor: Concreto Neves
    Concreto Neves
  • 8 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

A instalação sonora interativa Ouvir, de Craca Beat, foi criada para simular o processo de aprendizado coletivo de uma comunidade e a formação de um lĂ©xico prĂłprio a partir das trocas memĂ©ticas entre indivĂ­duos ou com o pĂșblico visitante. O projeto, comissionado pela mostra “Transe”, que reuniu outros 19 artistas-pesquisadores explorando conexĂ”es entre arte e ciĂȘncia em plena distopia, coloca duas redes autĂŽnomas de inteligĂȘncias artificiais em salas separadas. Cada uma apreende e reproduz lĂ©xicos melĂłdicos por meio de padrĂ”es sonoros, com um sistema de aprendizado de mĂĄquina desenvolvido especialmente para a obra em colaboração com o artista e programador Matheus Leston.


Uma das cĂłcleas da obra "Ouvir"
Uma das cĂłcleas da obra "Ouvir"

O pĂșblico Ă© convidado a intervir nesse processo continuado, cantando e assoviando junto Ă s cĂłcleas virtuais que respondem em tempo real, assimilando essas novas melodias em seu vocabulĂĄrio. Depois de meses de conversas e experimentos, o destino cultural dessas comunidades sonoras, tĂŁo prĂłximas geograficamente, mas afetivamente desconectadas, começa a revelar como se formam linguagens prĂłprias.


Vídeo mostrando a instalação em funcionamento

Essa proposta dialoga diretamente com uma reflexĂŁo sobre as inteligĂȘncias artificiais. Antes de poder produzir algo, toda IA precisa aprender. Esse aprendizado, na maioria dos casos, Ă© baseado em conteĂșdos disponĂ­veis na internet: milhĂ”es de imagens, rostos, hĂĄbitos de navegação, conversas privadas, curtidas e atĂ© o tempo de atenção em uma foto. É assim que modas aparentemente inocentes, como filtros que envelhecem rostos, se tornam combustĂ­vel para treinar algoritmos capazes de encontrar pessoas desaparecidas ou identificar manifestantes em protestos.


Cóclea sendo preparada para a instalação
Cóclea sendo preparada para a instalação

O ponto central Ă© que todo esse conhecimento vem de nĂłs, humanos. Os algoritmos reproduzem os preconceitos que alimentamos. Por isso, nĂŁo Ă© surpresa quando exibem comportamentos racistas ou discriminatĂłrios. DaĂ­ a urgĂȘncia de inundar as redes com conteĂșdos diversos, visibilizando grupos historicamente marginalizados e desafiando modas massivas que uniformizam estĂ©ticas e ideias.


Na obra Ouvir, a escolha foi por criar inteligĂȘncias artificiais rudimentares, isoladas da base de dados global. O Ășnico material de aprendizado sĂŁo os sons que elas prĂłprias emitem ou que o pĂșblico oferece. A experiĂȘncia remete ao comportamento de aves que, isoladas geograficamente, desenvolvem lĂ©xicos prĂłprios por meio de trocas culturais. A comparação abre espaço para pensar em gĂ­rias, sotaques e idiomas como construçÔes coletivas. Assim como animais assimilam os ruĂ­dos humanos, tambĂ©m somos atravessados pelos mĂșltiplos lĂ©xicos da natureza. O canto das cigarras em conjunto, as respostas rĂ­tmicas dos anfĂ­bios e as redes acĂșsticas das matas formam um sistema tĂŁo complexo quanto os micĂ©lios subterrĂąneos que interligam as plantas. Somos, antes de tudo, seres ouvintes, jĂĄ que a audição Ă© o primeiro sentido a se desenvolver no Ăștero.


PĂșblico interagindo com a obra
PĂșblico interagindo com a obra

Ao longo da exposição, amostras das melodias produzidas foram coletadas remotamente para acompanhar a evolução do comportamento sonoro. Ficou evidente que, em períodos de menor visitação, os diålogos entre as unidades se tornavam monótonos. Longos assobios de uma nota dominavam o espaço e reduziam a assimilação de melodias mais complexas. Esse fenÎmeno ecoa o que acontece nas redes sociais, onde mensagens simples e autoafirmativas encontram mais ressonùncia do que discursos divergentes ou de maior complexidade.


Nesse sentido, a obra investiga como arquiteturas digitais baseadas em bolhas de autoafirmação alimentam monotonia ideológica e intolerùncia. Se nas redes todos falam, também se ouve de maneira seletiva, priorizando confirmaçÔes em vez de escuta. O resultado é uma crise da escuta, tanto no espaço virtual quanto no mundo físico.

Ouvir se coloca como um experimento artístico-científico. Não no sentido de método rígido, mas como pråtica que usa dados sonoros, interaçÔes humanas e simulaçÔes para pensar sobre cultura e redes.

 
 
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